Recomendações

CALAGEM

O milho é considerado uma cultura responsiva à calagem, embora exista grande variabilidade genética com respeito à tolerância à acidez (Oliveira et al., 1983) e materiais adaptados a solos ácidos que mantém alto potencial e estabilidade de produção (Bahia Filho et al., 1997).

As recomendações de calagem no Brasil visam elevar a saturação por bases a 60% da CTC (Alves et al., 1999) ou 70% (Raij et al., 1997) o que corresponde a um pH em CaCl2 em torno de ou 5,5 ou 6,0. Em solos com altos teores de matéria orgânica (> 50 g/dm 3) é suficiente fazer a calagem para atingir cerca de 50% de saturação por bases (Quaggio, et. al., 1985; Raij & Cantarella, 1997).

Dados computados de quatro ensaios de campo, em plantio convencional, realizados por diversos anos em diferentes locais locais do estado de São Paulo mostram que os rendimentos de grãos de milho aumentam com o aumento da saturação por bases até próximo de 70%. Porém, com valores de V = 60%, já foi possível atingir 92% da produção relativa (Figura 1).

Figura 1. Resposta do milho à calagem. Resultados são médias de ensaios conduzidos por vários anos em 4 locais, em plantio convencional, no Estado de São Paulo. Dados compilados de Camargo et al. (1982), Quaggio et al. (1985, 1991), Raij et Al, 1998

 

O gesso pode ser uma alternativa para atenuar as condições de acidez do subsolo. Normalmente, o efeito da gessagem é independente do da calagem (Raij et al., 1998).

Em áreas sob plantio direto consolidado, especialmente onde o aporte de palha é grande, o milho tem respondido pouco à calagem. Em um solo com V=32%, há 15 anos sob plantio direto, Caires et al. (1999) não observaram resposta do milho à calagem mas, esta corrigiu a acidez nas camadas superficiais e subsuperficiais. Pöttker & Ben (1988) também não verificaram resposta significativa do milho à calagem em dois solos sob plantio direto no estado do Rio Grande do Sul; nos solos mais argilosos, o calcário provocou um aumento dos valores de pH apenas na camada até 5 cm de profundidade.

Esses estudos indicam que, em solos sob plantio direto consolidado, os critérios para recomendação de calagem para o milho podem ser diferentes dos adotados em plantio convencional pois o acúmulo de matéria orgânica na superfície pode reduzir o efeito da presença de Al tóxico no solo. Sá (1993) sugeriu a aplicação superficial, em intervalos menores, de pequenas doses (1,0 a 2,5 t/ha) de calcário, dependendo da textura do solo. No sul do Brasil, a recomendação de calagem para áreas em plantio direto foi alterada recentemente, prevendo-se a aplicação superficial de apenas metade da dose de calcário necessária para atingir um valor de PH de 5,5 (solos de lavoura) ou 6,0 (solos de campo natural), levando-se em conta a análise de amostras coletadas apenas até 10 cm (Wiethölter, 2000).

Para solos ha pouco tempo convertidos ao sistema de plantio direto, ou em regiões onde o acúmulo de palha na superfície é pequeno, não há ainda dados que permitam alterar com segurança as atuais recomendações de calagem, calibradas para o sistema de cultivo convencional.

ADUBAÇÃO

As recomendações oficiais de adubação para a cultura do milho evoluíram sensivelmente na década 1990, acompanhando os dados de pesquisa mais recentes e a melhoria geral nas condições de cultivo, que incluem novos híbridos e melhores práticas culturais.

Entre as inovações mais importantes está a segmentação de doses de nutrientes conforme a produtividade esperada, que pode ser bastante elástica para o milho devido às diferenças de solo, manejo e época de plantio (Quadros 1 a 5). Este conceito está estreitamente relacionado ao fato das culturas com maiores rendimentos extraírem e exportarem maiores quantidades de nutrientes e, portanto, necessitarem de doses diferentes de adubos. Isso se aplica mais apropriadamente, para o milho, a nutrientes como o nitrogênio e o potássio, extraídos em grandes quantidades, mas também é valido para o fósforo e, de certo modo, para o enxofre. De fato, as novas tabelas apresentam recomendações de doses de N e K bem maiores do que as mais antigas. O conceito é menos importante para o cálcio e o magnésio, cujos teores nos solos com acidez adequadamente corrigida, devem ser suficientes para culturas de milho com altas produtividades. O teor de Mg no solo, no entanto, deve estar acima de 5 mmol c/dm 3 (Quaggio et al., 1985; Raij & Cantarella, 1997).

Outras modificações introduzidas nas tabelas incluem um maior refinamento das recomendações de nitrogênio e a inclusão de micronutrientes, especialmente o zinco.

O principal critério para a recomendação de fósforo e potássio ainda é a análise de solo (Quadros 1, 3 e 4). Os limites analíticos das faixas de teores utilizadas para o P nas tabelas variam conforme o método de análise e o critério utilizado em cada Estado. Para o K, as faixas semelhantes em todo o Brasil. Calibrações feitas no passado, como as realizadas por Raij et al. (1981) com base em 25 ensaios de campo, mostraram a efetividade da análise de solo para discriminar as respostas do milho a esses nutrientes (Figura 2).

Figura 2. Aumento de produção de grãos de milho em função da aplicação de adubo potássico, conforme teor de K trocável no solo. mb: teor muito baixo; b: baixo; m: médio; a: alto. (Fonte Raij et al., 1981)

 

Altas produtividades de milho dependem de um bom suprimento de P no solo. Assim, em solos com baixa disponibilidade deste nutriente, a adubação deve visar, além da necessidade da planta, enriquecer o solo para garantir patamares de rendimento adequado. Embora a extração de P pelo milho seja relativamente baixa, especialmente se comparada com as de N e K, a porcentagem do P da planta exportada pelos grãos é da ordem de 80%. Assim, culturas com rendimentos de 8 t/ha de grãos, exportam cerca de 70 a 80 kg/ha de P 2O5, os quais devem ser, no mínimo, repostos em solos com teores médios ou pobres do nutriente.

A adição de P e N-amoniacal no sulco de plantio aumenta a absorção de P pelas plantas (Hanway & Olson, 1980) e a separação espacial dos nutrientes pode causar um menor acúmulo de ambos na parte aérea (Alves et al., 1999). Estudos em solução nutritiva mostraram que, quando apenas uma parte do sistema radicular é suprida com P, o seu acúmulo na parte aérea do milho foi menor do que quando todo o sistema radicular recebeu o nutriente (Alves et al., 1999), o que pode explicar os baixos rendimentos do milho nos primeiros anos de cultivo nos solos de Cerrado; com as adubações sucessivas, um maior volume de solo é enriquecido com P e as produtividades tendem a aumentar. Por outro lado, em solos pobres em P, a aplicação do fertilizante de modo localizado tende a ser mais eficiente. Anghinoni (1992) observou que esse efeito se manifesta com mais intensidade na fase inicial de crescimento do milho e que, para doses elevadas de P, o volume de solo tratado é pouco importante.

Altas respostas à aplicação de K – até 300 kg/ha de K2O – têm sido relatadas em solos de Cerrado (Ritchey et al. 1979; Ritchey, 1982) mas estas têm sido menores e menos freqüentes em outros solos da região sul e sudeste (Raij et al., 1981; Muzilli et al., 1982). A expansão da cultura do milho para regiões de solos mais pobres, como os do Cerrado, bem como a exploração por longos períodos de solos de boa fertilidade, aliada aos novos patamares de produção possíveis, têm levado a um aumento das doses de K recomendadas.

O tradicional método de aplicação da adubação de plantio – no sulco – pode resultar em queda da população de plantas devido ao efeito salino dos adubos potássicos. Para a cultura do milho, que geralmente produz uma espiga por planta, a redução da população tem efeito negativo muito intenso. Assim, deve-se limitar a quantidade de K aplicada no plantio. As recomendações dos estados do RG, SC, MG e SP (quadros 3, 5 e 6) preconizam doses máximas para o potássio no sulco de plantio, que variam de 60 kg/ha em SP (Raij & Cantarella, 1997) a 80 kg/ha em MG (Alves et al., 1999). A opção, para altas doses, é aplicar a o total ou parte do potássio a lanço, antes do plantio, ou aplicar uma parte do K em cobertura (Raij & Cantarella, 1997; Alves et al., 1999).

A extração e a exportação de S pelas plantas do milho são relativamente pequenas. Mesmo assim são necessários pelo menos 40 kg/ha de S para produzir cerca de 8 t/ha de grãos, dos quais cerca de 13 kg/ha são exportados com a colheita. A adubação do milho com enxofre tem sido relegada a um segundo plano com o uso de fórmulas concentradas de fertilizantes, colocando em risco a obtenção de altos rendimentos. Um número crescente de laboratórios realiza a análise de S em solo mas a profundidade de amostragem pode ser um fator importante para o diagnóstico desse elemento. É sabido que o S não se acumula nas camadas superficiais de solos que recebem calcário e adubo fosfatado, por causa da predominância de cargas negativas devido aos maiores valores de PH e do deslocamento dos sítios de adsorção, provocado pelo P. Portanto, análises realizadas com amostras de solo da camada de 0 a 10 cm, adotadas para áreas de plantio direto, tendem a subestimar a disponibilidade de S no solo.

 

Quadro 1. Recomendação de adubação para o milho no Estado de São Paulo.
Rendimento esperado N no plantio Teor de P no solo Teor de K no solo
muito baixo baixo médio alto muito baixo baixo médio alto
t/ha t/ha kg/ha N kg/ha P2O5 kg/ha K2O
4-6 20 80 60 40 30 70 50 40 20
6-8 30 90 70 50 30 110 70 50 30
8-10 30 (2) 90 60 40 140 110 70 40
10-12 30 (2) 100 70 50 160 130 90 50
(1) Para evitar excesso de sais, aplicar até 50 kg;ha de K2O no sulco de plantio e o restante com o primeiro parcelamento de N. Em solos com teores de K muito baixos ou para doses de cobertura >=80 kg/ha de K2O, é aconselhável transferir a adubação potássica de cobertura para a fase de pré-plantio, a lanço.
(2) É improvável a obtenção de altos rendimentos de milho com solos com teores muito baixos de P no solo.
Adubação com S: 20 kg/ha de S para rendimentos até 6 t/ha e 40 kg/ha de S para rendimentos maiores; Zn: 4 kg/ha de Zn para solos com Zn (DTPA) < 0,6 mg/dm3 e 2 kg/ha de Zn para solos com 0,6 a 1,2 mg/dm3.

Fonte: Raij & Cantarella (1997).

Quadro 2. Recomendação de adubação nitrogenada de cobertura para milho no Estado de São Paulo.
Rendimento esperado Classe de resposta a N(1)
alta média baixa
t/ha ————————— kg/ha N (2) —————————
4-6 60 40 20
6-8 90 60 40
8-10 120 90 50
10-12 140 110 70
(1) Probabilidade de resposta a N:
Alta: solos corrigidos, cultivo intensivo de gramíneas ou milho contínuo; primeiros anos de plantio direto; solos arenosos sujeitos a altas perdas por lixiviação
Média: solos ácidos que serão calcareados antes do cultivo do milho; sucessão com leguminosas; solos em pousio por 2 anos; uso moderado de adubos orgânicos.
Baixa: solos em pousio por longo tempo; cultivo após pastagens (exceto solos arenosos);. cultivo intensivo de leguminosas ou adubo verde; quantidades elevadas de adubos orgânicos.
Fonte: Raij & Cantarella (1997). 
Quadro 3. Recomendação de adubação com P e K para milho nos Estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina
Teor de P ou de K no solo Dose de P (1) Dose de K (2)
kg/ha P2O5 kg/ha K2O
Limitante 130 130
Muito baixo 100 100
Baixo 70 70
Médio 50 40
Suficiente 30 20
Alto ≤ 20 ≤ 20
(1) Doses se referem à classe de solos I (>550 g/kg de argila)
(2) Cuidados são recomendados com doses altas de adubo potássico para evitar excesso de sais no sulco.
Fonte: Comissão de Fertilidade do Solo – RS/SC (1995).
Quadro 4. Recomendação de adubação nitrogenada para milho nos Estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina (1)
Teor de matéria orgânica no solo Rendimento de grãos esperados
< 3 t/ha 3 a 6 t/ha > 6 t/ha
g/dm3 ————————— kg/ha de N —————————
< 25 80 130 160
26 – 35 70 110 140
36 – 45 60 90 120
46 – 55 50 80 100
> 55 ≤ 40 ≤ 65 ≤ 80
(1) A adubação de semeadura é de 20 a 30 kg/ha (20-30 kg/ha de N quando em plantio direto sobre resíduos de gramíneas). O restante da dose é aplicado em cobertura, com plantas com 40 a 60 cm de altura. Reduções de doses até 50% após leguminosas.
Fonte: Comissão de Fertilidade do Solo – RS/SC (1995).
Quadro 5. Recomendação de adubação para a cultura do milho no Estado de Minas Gerais (1)
Rendimento esperado N no plantio (2) Teor de P no solo Teor de K no solo Teor de P no solo Teor de K no solo N em cobertura (3)
baixo médio alto baixo médio alto
t/ha kg/ha N kg/ha P2O5 kg/ha K2O kg/ha N
4-6 10-20 80 60 30 50 40 20 60
6-8 10-20 100 80 50 70 60 40 100
> 8 10-20 120 100 70 90 80 60 140
(1) Em solo arenoso ou com dose de K superior a 80 kg/ha de K2O, aplicar metade da dose no plantio e o restante em cobertura junto com o N. Recomendação de S: 30 kg/ha. Micronutrientes: 1 a 2 kg/ha de Zn em solos deficientes.
(2) Aumentar a dose de plantio para 30 kg/ha de N em plantio direto
(3) Reduzir 20 kg/ha de N para cultura em sucessão à soja.
Fonte: Comissão de Fertilidade do Solo – RS/SC (1995).