Tecnologia da Produção

SILAGEM DE MILHO

 INTRODUÇÃO

A produção de silagem para os rebanhos no período seco do ano é indispensável, época em que as pastagens não fornecem alimento volumoso em quantidade e qualidade suficientes. Também em sistemas confinados alguns rebanhos são alimentados com silagem o ano todo, requerendo sua programação antecipada. Porém, para se obter uma silagem de boa qualidade, é preciso adotar procedimentos corretos em todas as etapas do processo produtivo.

Uma forma de obter silagem de forma mais econômica é investir na elevada produtividade de matéria seca para que haja diluição dos custos operacionais de implantação, manejo e colheita. Mas não basta ter à disposição grande volume de forragem. A necessidade de atender animais cada vez mais produtivos exige também elevada qualidade da silagem produzida, visando a melhor relação custo:benefício, através da formulação de dietas, nas quais a utilização de volumosos de melhor qualidade barateia a ração final, pela menor inclusão de alimentos concentrados.

O milho é tido como a cultura padrão para ensilagem e a ênfase no uso de cultivares mais adaptadas às condições locais é responsável pelos maiores ganhos em produtividade e qualidade, associado ao manejo adequado da cultura. Dentre os fatores que fazem do milho a cultura padrão para ensilagem estão:

  •  Tradição no cultivo e disponibilidade de pacotes tecnológicos;
  • Elevada produção de massa em um único corte;
  • Altas concentrações de proteína bruta e energia;
  • Características que favorecem a fermentação no silo;
  • Boa palatabilidade (ingestão);
  • Facilidade de mecanização em todas as etapas do processo.

ENSILAGEM: CONCEITOS BÁSICOS

 Silagem:

É a forragem verde, suculenta, picada e conservada em silos, através da produção de ácidos que reduzem o pH, por meio de fermentação anaeróbia.

 

Silos:

São estruturas (locais) onde são armazenadas as silagens. Podem ser do tipo trincheira, poço, superfície, “bag”, etc.

 Ensilagem:

É o método de conservação de forragem para alimentação animal baseado na fermentação láctica da matéria vegetal na qual são produzidos ácido láctico e outros ácidos orgânicos, causando a diminuição do pH até valores inferiores a 5 em condição de anaerobiose. Este procedimento impede o desenvolvimento de bactérias indesejáveis, como coliformes e clostrídios que deterioram a silagem.

 Efluente (ou chorume):

É a umidade desprendida da massa ensilada devido à pressão de compactação e ao rompimento celular. Sua presença denuncia excesso de umidade pela colheita em estádio muito precoce, representa perdas de nutrientes e pode contaminar o ambiente. Porém, há formas de controle, como colher a planta com teor ideal de matéria seca (32 a 37% MS) e adição de materiais absorventes como polpa cítrica, fubás, farelos.

 FATORES QUE AFETAM A QUANTIDADE E QUALIDADE FINAL DA SILAGEM

Os fatores que afetam a produtividade e a qualidade da silagem final vão desde a escolha do material, passa pelo processo de cultivo, colheita, ensilagem e vai até o manejo de abertura e retirada da massa. A seguir seguem os principais fatores:

 Escolha das cultivares

É a correta seleção de híbridos e variedades que vai determinar o potencial produtivo e qualitativo da cultura, uma vez que existem grandes variações nas exigências das cultivares disponíveis no mercado, assim como também na precocidade, tipo de grão, janela de corte, altura e arquitetura de planta. Por isso as cultivares escolhidas devem ser adaptadas para cada região, considerando as variações de clima, altitude e solo. Também devem apresentar a característica de resistência ao acamamento, visando a redução de perdas no campo, as dificuldades na ensilagem e a introdução de terra no silo, que poderiam levar a fermentações butíricas indesejáveis. Com relação à transgenia, esta tecnologia baseia-se na introdução do gene Bt (Bacillus thuringiensis) com efeito tóxico seletivo, agindo somente nas lagartas e não estendendo sua ação a outros organismos (homem e animais), mantendo-se estáveis as demais características nutricionais da planta. Portanto, a vantagem no uso de sementes transgênicas está na economia da aplicação de inseticidas e, para a tecnologia Viptera (Vip3Aa20), na ausência de danos que seriam causados pelas lagartas à espiga, além da economia de combustível e benefícios ao meio ambiente pela redução de inseticidas. Ao calcular a relação custo/benefício do milho transgênico, deve-se considerar que a economia com o controle químico de lagartas é contralançada pelo maior custo das sementes em comparação ao convencional.

 População de plantas

Deve ser utilizada a densidade recomendada para cada cultivar e região, semelhante à recomendada para produção de grãos, considerando a época de semeadura e o nível de investimento em adubação. Se por um lado uma pequena elevação na população eleva a produtividade, por outro, o aumento excessivo da população de plantas interfere na arquitetura da planta (altura e proporções de suas partes), provocando variações tanto no rendimento total de massa como na sua qualidade final, com possível aumento da fração forrageira (colmo e folhas) e redução da percentagem de espigas e grãos, podendo ainda aumentar o índice de plantas acamadas e quebradas. Nussio (1991) definiu a planta ideal de milho para o processo de ensilagem como sendo aquela que apresentasse 16% de folhas, 20 a 23% de colmo e 64 a 65% de espigas na MS. Conforme este mesmo autor, a espiga deveria apresentar 74 a 75% de grãos, 7 a 10% de palhas e 14 a 17% de sabugo.

 Tratos culturais

A adubação, o uso de herbicidas e inseticidas e época de semeadura são fatores que devem ser considerados a fim de atender às demandas da cultivar para que esta expresse todo seu potencial produtivo. E um ponto importante a ser salientado é que a adubação do milho para a ensilagem, em áreas utilizadas por vários anos seguidos para esta finalidade, deve ser em quantidade maior do que em uma cultura de milho para produção de grãos, uma vez que na ensilagem toda a parte vegetativa da planta é retirada da área e a reposição de nutrientes deve ser realizada. Portanto, a área deve ser monitorada através de análises de solo para a correta reposição de nutrientes através da adubação e, se possível, também de adubação orgânica (esterco ou adubação verde/plantas de cobertura).

 Ponto de colheita

O ideal é que a planta de milho seja colhida com teor de matéria seca (MS) entre 32 e 37% (Cruz et al., 2008), quando os grãos apresentam 1/2 a 2/3 da linha do leite ou também conhecido pelo estádio farináceo. O ponto de corte afeta a silagem de milho em dois aspectos. Primeiro que, quanto mais precoce a colheita menor a produtividade total de massa por área, principalmente da fração grãos ainda em formação e, em segundo, através da definição do padrão de fermentação, uma vez que o excesso de umidade favorece fermentações indesejáveis. Se a colheita for feita com teor de MS abaixo de 28% (muito úmido), embora possa haver elevada produção de massa verde, a produção de matéria seca vai ser reduzida. Também vai haver dificuldade na queda do pH a menos de 5, havendo ação de bactérias do gênero Clostridium, grande perda de carboidratos solúveis, produção de ácido butírico, proteólise e deterioração, com perdas visíveis por apodrecimento e a diminuição na ingestão. Por outro lado, colheita tardia, com teor de MS acima de 40%, embora garanta a máxima deposição de amido no grão e rendimento de matéria seca por hectare, dificulta a compactação do material no silo, gerando silagem de baixa densidade e com grande retenção de oxigênio e desenvolvimento de fungos e bactérias indesejáveis (Nussio et al., 2001). Embora haja um consenso sobre o momento ideal para a colheita, frequentemente ocorre antecipação baseada na avaliação visual após o início da secagem das folhas, principalmente se a cultura tiver sido atacada por alguma doença que causa clorose ou seca das folhas.

 Eficiência de colheita

No momento da colheita todos os equipamentos devem estar ajustados de modo a garantir a maior eficiência possível. A altura de corte deve ser por volta de 25 a 30 cm de altura do chão, para evitar o recolhimento de terra e o tamanho médio de partícula deve estar entre 0,5 a 2,0 cm, o que pode ser garantido através da correta regulagem e afiação das facas. O tamanho médio de partícula associado ao teor de umidade da massa afetará posteriormente a compactação e retenção de oxigênio. Silagem com elevado teor de matéria seca e/ou partículas grosseiras apresentarão baixa densidade o que denota elevada retenção de oxigênio no seu interior. O ideal é que a densidade da massa dentro do silo seja por volta de 550 kg/m3.

 Ensilagem

O processo deve apresentar enchimento rápido, compactação contínua e eficiente e vedação do silo. Uma forma de otimizar o processo é plantar talhões com alguns dias de diferença ou então utilizar mais de um híbrido com diferentes ciclos (precoces e de ciclo normal) de forma a ter a cultura em estágio vantajoso para a ensilagem por mais tempo, com maior janela de corte, e na hora de ensilar fazer maior número de silos pequenos ao invés de um único silo de tamanho muito grande. A superfície do silo deve ser abaulada para evitar depósito de água na superfície, a lona deve ficar bem esticada, sem perfurações e presa nas laterais para evitar entrada de ar. Devido suas características próprias favoráveis à fermentação não há, na maioria das vezes, necessidade de usar aditivos durante a ensilagem do milho.

 Uso da silagem

A abertura do silo deve ocorrer após 25 dias do fechamento. É recomendável que uma fatia mínima de 15 cm seja removida diariamente após a abertura do silo, pois uma vez em contato com o ar o material favorece o crescimento de fungos e leveduras. Assim, a remoção diária da camada mantém o painel íntegro e evita a entrada de ar no interior do silo. Por isso é recomendado fazer silos menores e que serão consumidos mais rapidamente do que um silo muito grande onde o painel vai ficar exposto por vários dias favorecendo a ação de fungos e leveduras, elevando as perdas.

 Valor nutritivo

Uma silagem é de boa qualidade quando apresenta cor esverdeada, cheiro agradável e levemente ácido, textura firme, rica em grãos e sem liberação de excesso de umidade quando comprimida.

O maior valor nutritivo da silagem ocorre tanto pela maior participação de grãos na massa quanto pela maior digestibilidade da porção forrageira, principalmente do colmo. O fator que mais influencia o valor nutritivo da silagem de milho e a proporção de suas frações. O grão, pelo seu alto teor de amido, é a fração mais digestível e nutritiva da planta de milho e o colmo, devido seu elevado teor de fibra, é sua fração menos digestível. Portanto, plantas mais produtivas em grãos são mais desejáveis. Do ponto de vista de composição é conveniente que a cultivar apresente teor de FDN entre a 45 a 52% e teor de PB entre 5 e 10%.

Com o avanço da maturidade da planta, o enchimento dos grãos ocorre paralelamente à elevação do teor de matéria seca da planta e perda de digestibilidade dos componentes da haste. Portanto, em se considerando a planta toda há mínima variação na digestibilidade da MS, pois a maior percentagem de espigas e grãos sugere maior diluição da porção de fibra pelo amido, mantendo o NDT (nutrientes digestíveis totais) inalterado e maior teor de MS favorecendo o processo fermentativo e a ingestão.

Concluindo, a silagem final depende não somente de uma cultura de elevada produtividade e qualidade, mas também de cuidados em todas as etapas, desde a escolha da cultivar até o momento do fornecimento no cocho. Por isso, procedimentos adequados devem ser adotados a cada passo visando máxima eficiência produtiva e reduzidas perdas.